Investir tempo em recuperar discípulos que estão desanimados ou desistidos da fé é o maior desafio dos discipuladores que desejam sucesso com sua equipe.
“E disseram um ao outro: Porventura, não nos ardia o coração, quando ele, pelo caminho, nos falava, quando nos expunha as Escrituras?” (Lucas 24:32)
No exercício do discipulado, é comum termos que investir tempo em recuperar pessoas que estão desanimadas ou desistidas da fé. Não raramente encontramos discípulos com discursos e sentimentos estranhos ao chamado, assumindo comportamentos que os tornam irreconhecíveis diante daquilo que um dia foram na caminhada cristã.
Mais desafiadora ainda se mostra a tarefa da restauração, quando o motivo da desistência está relacionado com o próprio líder, devido a uma incapacidade do discípulo em compreender ou assimilar determinadas atitudes suas.
O encontro de Jesus com os dois discípulos desistentes que voltavam a Emaús (Lc 24:13-36) pode nos ajudar a compreender essas crises e agir de maneira adequada a fim de que a restauração se processe e o problema seja vencido.
Quando lemos o relato bíblico, claramente percebemos a alma daqueles dois discípulos. Estavam decepcionados e entristecidos porque não haviam entendido o episódio da cruz. O que seu líder Jesus havia feito não cabia em sua capacidade de compreensão e o resultado agora era revolta, frustração, desistência. Aquele que fora até então seu modelo, convertera-se dentro deles em sua grande decepção, não porque fizera alguma coisa que merecesse essa reação, mas simplesmente porque eles não tinham discernimento e maturidade para aceitar suas escolhas.
A primeira coisa que Jesus faz para trazer de volta o coração precioso, mas adoecido destes homens é aproximar-se, buscá-los no estado e condição em que se encontravam, descer à realidade deles. A Bíblia diz que “o próprio Jesus aproximou-se e ia com eles” (vs. 15).
Muitos líderes perdem discípulos preciosos por não terem a disposição de fazer esse trajeto. Ao saberem da desistência de alguém, logo se posicionam como juízes e esperam uma reação espontânea de arrependimento. De longe, resolvem esperar (uma espera que muitas vezes não terá fim).
Ao aproximar-se de seus discípulos, antes de falar, Jesus faz questão de ouvi-los. Mais do que isso, o Senhor os instiga à exposição, a revelar seus sentimentos, mostrar seus corações (vs. 17-26). É assim que se chega a um diagnóstico adequado e que se sabe o que convém dizer.
Muitas vezes temos uma dificuldade enorme de ouvir, ainda mais quando o discurso que está do outro lado da linha é contrário ao que cremos. No entanto, essa é uma virtude que todo líder precisa desenvolver. É no exercício dela que conquistamos (ou reconquistamos) a confiança, revelamos o valor das pessoas e discernimos onde está o problema e qual o remédio adequado para tratá-lo.
Depois de ouvir, Jesus se põe a falar e aí Ele estabelece claramente um contraponto diante de tudo o que entulhava as fontes do coração daqueles homens. Embora fosse bastante firme em sua exortação, não dando margem para que os desistentes pensassem ter angariado mais um parceiro para sua revolta interior, o Senhor não se perdeu em argumentos humanos, não deixou que o conflito descambasse para o lado pessoal, mas passou a ministrá-los baseado pura e exclusivamente em verdades bíblicas (vs. 27). Mas perceba que Ele o fez de forma apaixonada e espiritual, não legalista, ao ponto de depois os dois discípulos reconhecerem que lhes “ardia o coração” enquanto Jesus “expunha as Escrituras” (vs. 32).
Acho bastante interessante o fato de que o Mestre, após ter falado tudo que eles precisavam ouvir, “fez menção de passar adiante” (vs. 28). Isso me revela a postura de um líder espiritual. Ele exorta, fala a verdade em amor, mas não coage, não usa de ameaças, mas apenas espera que a palavra de Deus suscite uma reação no coração desistente. No caso específico dos discípulos de Emaús, deu certo, tanto que ao sentir que perderiam aquela doce companhia, pediram que o Senhor entrasse em sua casa e permanecesse com eles (vs. 29).
Naquele momento se revelou uma reação positiva no coração daqueles que estavam se perdendo. Ao manifestarem o desejo de receber mais, eles deram espaço para a restauração e aí Jesus lhes reconquistou plenamente com um gesto simples, mas profundo: comunhão. Ao partir o pão com eles à mesa, o Senhor deixou claro que estava ali por um relacionamento que se baseava, não em circunstâncias, mas em aliança e a disposição de recebê-los de volta, amando-os, sem retaliações ou revanchismos.
Missão cumprida! Aqueles que haviam desistido, estavam restaurados e agora podiam fazer coro com os da fé, com os que estão sempre dispostos a resgatar mais alguém...
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